Fim das bets reacende debate sobre dívidas e sofrimento emocional no Brasil

Levantamento aponta perda de R$ 62,5 bilhões das famílias brasileiras só em 2025; especialistas relacionam vício em apostas a quadros de ansiedade, depressão e sofrimento emocional grave

A proibição das plataformas de apostas on-line no país, anunciada pelo governo federal na última sexta-feira (25), reacendeu o debate sobre os estragos causados pelas bets na vida financeira e emocional de milhões de brasileiros. Para quem convive de perto com o problema, a medida chega como um respiro. É o caso de um homem de 42 anos que, sob condição de anonimato, relatou ter perdido carro, casa e emprego por causa das dívidas acumuladas com o jogo. Hoje ele vive sozinho, dorme no chão de um dormitório no interior de Goiás e afirma temer por sua segurança devido a débitos contraídos com agiotas.

Uma proibição que chega tarde para muitos

A Medida Provisória 1394, assinada pelo presidente Lula, revoga o dispositivo da Lei 13.756/2018 que abriu caminho para a regulamentação das apostas esportivas no Brasil. Na prática, as bets funcionaram por cinco anos sem qualquer regra, a regulamentação só veio em dezembro de 2023, trazendo exigências como avisos de desestímulo ao jogo, que raramente foram cumpridas pelas operadoras.

O tamanho das perdas

Segundo boletim do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz), as famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões com as apostas apenas no último ano, uma média mensal de R$ 4,7 bilhões entre outubro de 2024 e março de 2026. O montante representa 0,68% da renda disponível das famílias no país, num período em que as bets movimentaram quase R$ 351 bilhões via Pix.

Adolescentes na mira

Um dos dados mais alarmantes do cenário envolve o público jovem. Levantamento feito com quase 2 mil estudantes de 191 escolas brasileiras mostrou que um em cada cinco alunos do ensino fundamental e médio já apostou on-line e que o hábito pode começar já aos 11 anos de idade. Psicólogos ouvidos na reportagem original explicam que o cérebro adolescente ainda não tem plenamente desenvolvida a capacidade de controlar impulsos, o que os torna especialmente vulneráveis ao apelo das apostas.

Saúde mental em alerta

Médicos e psicólogos relatam que apostadores de todas as idades vêm apresentando sinais de desesperança, isolamento social, aumento do consumo de álcool e, em casos mais graves, sofrimento emocional profundo, que exige atenção redobrada de familiares e profissionais de saúde. A recomendação dos especialistas é tratar esse sofrimento com abertura, tanto em consultórios quanto em grupos terapêuticos, já que muitas vezes quem está no vício não reconhece sozinho a gravidade da própria situação.

Diante do agravamento da crise, o Ministério da Saúde ampliou os teleatendimentos pelo SUS a pessoas com problemas relacionados às apostas e anunciou que vai intensificar a busca ativa de apostadores frequentes, com apoio de dados da Receita Federal e dos ministérios da Fazenda e da Segurança.

Com informações da Agência Brasil

Imagem: Saulo Ferreira Angelo/Shutterstock

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Notícias Recentes

Compartilhe como preferir

Copiar Link
WhatsApp
Facebook
Email