Leopardus tilcayo foi reconhecido pela ciência após análise genética de 38 felinos; descoberta é a primeira descrição de uma nova espécie de felino vivo em mais de um século
Uma pequena espécie de felino que vive nas florestas montanhosas da Bolívia passou a ocupar um lugar especial na história da zoologia. O Leopardus tilcayo, conhecido localmente como tilcayo, foi reconhecido como uma espécie distinta pela ciência em um estudo internacional liderado pelo pesquisador brasileiro Eduardo Eizirik, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).
Publicado em setembro na revista científica Current Biology, o trabalho representa a primeira descrição formal de uma nova espécie de felino não fóssil em mais de 100 anos. A última descrição desse tipo havia ocorrido em 1923.
O animal foi encontrado na região de Nor Yungas, nas montanhas bolivianas, uma área de florestas úmidas localizada entre os Andes e a Amazônia. O felino mede aproximadamente 46 centímetros de comprimento e pesa cerca de 1,4 quilo, sendo menor que muitos gatos domésticos.
A história da descoberta começou em 2016, quando um filhote foi encontrado por um morador da região e levado ao refúgio de animais La Senda Verde. Inicialmente, os pesquisadores acreditavam que se tratava de um exemplar de uma espécie já conhecida, o Leopardus tigrinus. A análise genética, porém, revelou outra história.
Uma descoberta feita pelo DNA
Para chegar à conclusão, os pesquisadores analisaram o genoma completo de 38 indivíduos do gênero Leopardus, incluindo exemplares atuais e oito espécimes históricos preservados em museus da Europa e dos Estados Unidos.
O estudo mostrou que o grupo de felinos conhecido como “tiger cats”, ou gatos-do-mato-pequenos, não correspondia a uma única espécie, como se acreditava anteriormente. A análise identificou cinco espécies geneticamente distintas, entre elas o recém-descrito Leopardus tilcayo.
Os cientistas classificam esses animais como espécies crípticas. O termo é utilizado para espécies que apresentam aparência muito semelhante, mas possuem diferenças genéticas e histórias evolutivas independentes. É justamente essa semelhança que fez com que animais diferentes fossem classificados durante muito tempo como pertencentes a uma mesma espécie.
A linhagem do Leopardus tilcayo teria se separado das demais linhagens de gatos-do-mato há aproximadamente 1,4 milhão de anos, segundo a análise genética.
Brasileiro está entre os pesquisadores responsáveis pela descoberta
A pesquisa reuniu cientistas de diferentes países, mas teve a coordenação do brasileiro Eduardo Eizirik, da PUCRS. O estudo contou ainda com outros pesquisadores brasileiros, além de cientistas da Bolívia, Peru, Bélgica, Colômbia, Estados Unidos e Reino Unido.
Além da nova espécie boliviana, o trabalho identificou uma nova subespécie nas florestas de Yungas, no Peru, denominada Leopardus tigrinus antisuyo.
A pesquisa também chama atenção para uma questão que vai além da descoberta de um novo animal. Reconhecer espécies que antes eram confundidas pode mudar a forma como os cientistas avaliam o risco de desaparecimento desses felinos e ajudam a definir estratégias específicas de conservação.
No caso do tilcayo, ainda existe pouca informação sobre sua população e seus hábitos. O fato de a espécie ter sido reconhecida apenas agora também mostra quanto da biodiversidade das florestas sul-americanas ainda pode permanecer desconhecido.
E há um detalhe especialmente interessante nessa história: a ciência levou mais de um século para descrever formalmente uma nova espécie de felino vivo, e um dos pesquisadores à frente dessa descoberta histórica é brasileiro.
Fonte: Agência Brasil, PUCRS e artigo científico publicado na Current Biology.
Artigo científico: Phylogenomics and museomics reveal five distinct species of tiger cats in South America, publicado na Current Biology. Consultar o estudo científico


